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Paternidade em Portugal: pais cada vez mais tarde

A tardia paternalidade e a crise demográfica

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Portugal é um dos países com taxas de natalidade mais baixas, com uma média de 1,3 filhos por mulher. É cada vez mais comum, por vários motivos, as mulheres adiarem a decisão de ser mães.

Em 2014, a fundação Francisco Manuel dos Santos fez um estudo no qual analisou algumas das razões que podem explicar as tendências que observamos hoje relativas a este assunto. Concluiu que uma transição tardia para a vida adulta, em particular o facto de não se ter ainda saído de casa dos pais, ou tê-lo feito após os 25 anos, aliado a uma entrada mais precoce no mercado de trabalho, parecem ser obstáculos à parentalidade, podendo potenciar um menor número de filhos.

Uma mudança no paradigma socio-económico


A parentalidade, apesar de ainda ser desejada, já não é para muitos uma condição essencial para a autorrealização. Os que discordam de que a realização pessoal passa por ter filhos têm uma maior tendência para adiar a entrada na parentalidade ou para não desejar ter filhos. As restrições financeiras ou de tempo também influenciam esta decisão, pois existe uma divergência entre quem dá primazia à “qualidade”, isto é, preferem ter só um filho por saber que a esse conseguem assegurar as melhores oportunidades e condições; e entre quem não concorda nesta compensação entre “quantidade vs. qualidade” e aí poderão ser mais suscetíveis a ter um maior número de filhos.

A fundação aponta que esta atitude que se tem consolidado ao longo do tempo, condicionando os percursos reprodutivos dos portugueses nas últimas décadas, não implica uma diminuição do valor dos filhos, mas sim a sua crescente valorização. À medida que o número de filhos diminui, a sua importância cresce e assiste-se a um aumento do investimento financeiro e emocional dos pais em cada um dos seus filhos. Isto significa que o número “ideal” de filhos passa a ser aquele que permita aos pais manter um determinado nível de vida para a família em geral, com menos privações e sacrifícios, de modo a garantirem aos filhos melhores condições de vida, maior probabilidade de ascensão social, mesmo que para tal se decida ter só um filho.

A par da mudança na preferência por famílias de dimensão mais reduzida, identifica-se uma outra alteração: a deslocação da idade considerada “adequada” para se ser pai ou mãe para idades mais tardias. Nas últimas décadas registou-se um aumento do número de mulheres que optam pela maternidade muito após os 35 anos e se, por um lado, existem riscos associados à gravidez tardia, por outro as mulheres sentem-se mais seguras no papel de mãe. Em 1960 a idade média do primeiro filho era 24 anos, atualmente é 31.

Em setembro de 2017 a revista Ata Medica Portuguesa publicou o artigo “Ser Mãe Depois dos 35 Anos: Será Diferente?”; analisou a relação entre idade materna avançada e as suas consequências materno-fetais, assim como a perceção materna dos riscos de uma gravidez depois dos 35 anos. Concluiu não haver diferenças em relação à presença de patologia materna na gravidez, malformações congénitas, necessidade de reanimação neonatal ou prematuridade; no entanto, demonstrou haver maior necessidade de técnicas de reprodução medicamente assistida para engravidar. A idade mais fértil das mulheres situa-se entre os 22 e os 30 anos, decrescendo rapidamente a partir dos 35 anos. Se uma mulher decide ter filhos, é importante aconselhamento médico, a fim de identificar qualquer problema que possa afetar as hipóteses de engravidar. Nessa conversa devem ser considerados temas como alterações do número de cromossomas, aborto espontâneo, aumento da taxa de cesariana, hipertensão, diabetes gestacional e outras complicações obstétricas associadas à idade materna avançada.

O número de novos pais com mais de 35 anos continua a aumentar


Em declarações ao Jornal de Notícias, a Direção-Geral de Saúde, relativamente às notícias sobre o aumento da mortalidade materna em Portugal, relembrou que um terço dos bebés nascidos em Portugal resultaram da gravidez de mulheres com mais de 35 anos, que entre 2014 e 2017, quase 60% das mortes maternas ocorreram em mulheres nessas idades e que tanto a idade elevada da mãe como patologias que lhe podem estar associadas podem aumentar a probabilidade da mortalidade materna. Sobre a mortalidade infantil, os últimos dados de 2019 indicam que esta caiu em média por ano em Portugal 4,9%. Em 1990, Portugal registava 12 mortes de crianças com menos de 5 anos por cada 1000 nascimentos, número que caiu para 3 em 2018 como já se tinha verificado em 2017, o que coloca Portugal entre os países do mundo com melhores indicadores.

Do ponto de vista demográfico, este contínuo declínio compromete a dinâmica populacional, na medida em que o número de nascimentos deixa de compensar o número de óbitos (saldo natural). Em 1982, o número médio de filhos por mulher passou para baixo do limiar da substituição de gerações (nível que equivale a 2,1 filhos por mulher, mantendo-se os atuais níveis de mortalidade). No ano de 1994 este índice ficou, pela primeira vez, abaixo do limiar de 1,5 filhos – valor já considerado crítico para a sustentabilidade de qualquer população. Face a esta situação, e associado ao aumento da esperança de vida, Portugal tem vindo a registar um intenso e acelerado envelhecimento populacional, que coloca em causa o equilíbrio geracional e a sustentabilidade do próprio Estado social tal como está concebido.

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